Pontos Cruciais
Entre Carolina Maria de Jesus e Tara Westover
Fazer-nos lembrar do passado e das condições desoladoras do presente, sempre foi dever da história e da literatura. Hodiernamente têm aparecido uma quantia significativa de obras literárias com a proposta de escrever sobre o vivido, sem muito floreio e lirismo.
Juntando os termos “escrever” e “viver”, a escritora Conceição Evaristo cunhou o termo “escrevivências”, como forma de mostrar o ‘apoderamento de mulheres negras sobre a literatura’ – mas não só elas, visto que vários outros escritores e até áreas distintas da literatura podem se manifestar com a escrevivência.
Apesar da criação do termo, a coisa em si já existia antes. Manifestou-se, por exemplo, nos diários da escritora Carolina Maria de Jesus (1960) e no livro da historiadora Tara Westover (2018). Sobre essas nos dedicamos hoje.
Ambas as autoras poderiam ter sido suprimidas e postas ao silêncio, cada qual por seus motivos. No entanto, ambas valeram-se da autonarrativa para engrandecer, e até mesmo universalizar seus relatos, com o objetivo de mostrar sua verdade: uma na favela brasileira do Canindé, em São Paulo, e outra no topo de uma montanha no estado de Idaho, isolada da civilização, da escola e do atendimento à saúde. Se não houvesse o título de “autobiografia” sobre cada livro, poderíamos acreditar que fossem histórias muito bem inventadas.
Carolina conta, em seu diário de uma favelada, a vida atribulada que leva como catadora e lavadeira. Ela diz “cato papel, lavo roupa pra dois jovens, permaneço na rua o dia todo. E estou sempre em falta. A Vera não tem sapatos. E ela não gosta de andar descalça”. Na condição de mãe, Carolina teve de deixar a moradia que tinha e também o emprego como trabalhadora doméstica. Passou por diversas realidades; vendeu cerveja, foi auxiliar de enfermagem, faxineira de hotel e até artista circense.
Foi nessa vicissitude, na favela do Canindé, sob um teto que ela própria construiu, que tomou apego aos livros e praticou o hábito da escrita a partir de revistas e cadernos que recolhia do lixo. E no cuidado que tinha com as palavras do cotidiano, decidiu também escrever sobre o social. Fez denúncia à perpetuação histórica de uma exclusão de gênero, classe e raça – temas ainda hoje debatidos. Sua voz era-é potente e foi usada para anunciar a possibilidade de transformação social. Fez isso a partir da sua própria transformação, engatada pelo poder da leitura e da escrita.
Da mesma forma, a dez mil quilômetros de distância, uma garota de dezessete anos teve sua vida mudada pela educação. Numa família de mãe, pai e dois irmãos, Tara Westover não frequentava escola nem atendimentos quaisquer à saúde. O pai era mórmon fanático que cria no fim do mundo após a virada do ano 2000. Enterrava armas, dinheiro e estocava comida para a data mórbida, enquanto a mãe trabalhava com óleos essenciais e plantas para cuidar da saúde da família, além de ser parteira.
A história contada no seu “A Menina da Montanha” (Educated, 2018) é secretada numa linguagem que expõe as extremas relações com a família e conhecidos, sem que tom sentimental em demasia ou saudoso à condição que viveu por dezessete anos. Pouco ensinada sobre matérias escolares pela mãe, Tara só pisou numa escola aos dezessete, e na obra que escreveu conta a trajetória até a chegada do doutorado em história, pela Cambridge, na Inglaterra.
Separadas no tempo e no espaço, Carolina e Tara não se desvencilharam jamais da vontade de aprender e da consciência – algoz – da realidade em que estavam. Dessas autoras espero que possa ler algo, e se deslumbre com o poder, como já disse, que a educação pode exercer sobre tantas vidas.
De tempos em tempos, relembramos os Pontos Cruciais, tais quais o olhar compassivo e integrativo com realidades distintas das nossas e a busca proativa por conhecimento.