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Clarice Lispector: hermetismo e pausa

Sem atributos

 

Não há linhas suficientes para definir atributos a Clarice, dificultosa e misteriosa; excêntrica e intelectual; jovem talento e eterna voz. Não sabia o que escrever sobre minha autora favorita e talvez por isso adiei minha vinda ao computador para dissertar alguma coisa diferente do que já se fala. Tentarei, por desespero de um pensamento antigo, ser inovador – numa época em que isto é impossível.

Vou tomar o momento e contar minha história com Clarice. Eu havia entrado no mundo dos livros há menos de um ano, creio, e então me deparo com o livro Água Viva na minha estante. Hoje, claro, não recomendo este livro para ninguém que quer iniciar leituras “claricianas”, porque é forte (como a maioria), mas diferentemente pungente. É uma conversa nos meandros do feminino que só alguém da estirpe de Woolf, Beauvoir ou Davis poderiam operar sem medo.

Ela fala, na obra em questão, com uma tal desconexão e subsequente conexão de ideias que me pasmou a cada página. A ideia, trazida pelo The New York Times, de que Clarice vira o dicionário de cabeça para baixo e o rearranja – ainda mais com seu próprio sentido – foi primordial na leitura. Como é que alguém escreve: “Estou pensando em tartarugas. Uma vez eu disse por pura intuição que a tartaruga era um animal dinossáurico. Depois é que vim ler que é mesmo. Tenho cada uma.” com total autoridade sobre a palavra? Mesmo que ordene pensamentos, fuja e retome uma ideia, Clarice é pontual e, no fim, tudo parece acordar e fazer sentido.

Qual a magia de escrever de forma tão audaz, tão intimista? De tanta pergunta, apenas trago mais. E para além do conto e do romance, Lispector foi excelente cronista. No topo das minhas crônicas preferidas, está “Das vantagens de ser bobo”, a qual transcrevo abaixo a fim de que você a conheça melhor:

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo.
O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo, estou pensando”.
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.
O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.
O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.
Resultado: não funciona.
Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.
Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo.
[…]
É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

*Acesso em: 6 de julho de 2023. (https://claricelispector.blogspot.com/2008/07/das-vantagens-de-ser-bobo.html>)

 

A Hermética, fechada e jamais aberta, Clarice, fala aos nossos corações em um sussurro límpido e encorajador. A todos, tocados ou não, até a próxima semana.

 

 

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Sobre o autor

Lucas é professor de inglês e bibliófilo. Leitor desde os 13 anos. carrega a paixão e o vício por leitura como se fosse desde o berço.

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