Missões escritoras
O escritor na mesa de homenagem
Li Sartre dizendo que o escritor recebe a missão de humanizar os outros a partir da necessidade incontornável que tem de escrever. Dia 25, ontem, foi o momento desse personagem: alegórico, felizardo e mais ou menos neutralizado; às vezes esquecido, sempre responsabilizado pelas suas tragédias e finais tristes; concupiscência ampliada e remo volante para o leitor ousado, inqualificável que leva e é levado.
Como disse a sabedoria épica de Cecília Meireles:
“Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta”
E o poeta — assim como o contista e o romancista — unido na qualidade indelével do escrevente, versa versos incríveis: desembucha o silêncio, corre sobre palavras e lança vírgulas no espaço-tempo. Discorre a corda que segura os pontos da coerência, arroja a sintaxe sem medo de paradoxos. Ah, o poeta é, em especial, virtuosamente, separado dos outros… é persona viva do mundo das letras e é quase parte de um estudo mitológico.
Independentemente, é este antes um escritor: um amante nato das criações autênticas da arte literária. É o salvador de possibilidades como Macabéa chegando na cidade grande, Bentinho duvidando traição; Fabiano em processo de animalização ao lado de Baleia; Bella e Edward se beijando; o Leão criando o mundo; um Coelho atrasado; Antígona vingando seu irmão e outras coisas tantas.
Poeta ou escritor ou ousado contador recebe hoje um tiro ao céu, simbólico mas colorido na intenção de se lembrar da sua dignidade milenar.