Romance de segredo
Romantismo brasileiro em “Antes do fim do mundo”
Raras vezes li romance romântico, mas quando se está “cara a cara” com uma autora decidida e de bom papo, a vontade aumenta.
Ouvi alguns detalhes do novo livro da escritora americanense Daniele Aguiar, “Antes do fim do mundo”, e conversamos alegremente há alguns dias para que eu pudesse lançar o primeiro episódio do podcast literário Ponte e Vírgula e também escrevesse a coluna de hoje.
Daniele me contou, logo no início, que é uma “romântica incurável”… e logo para mim, um “antirromântico” amante do realismo. Falo isso sempre ao riso, porque não deixo o gosto literário sobressair na vida, já que sempre escrevo cartas para quem amo e, ah, as flores estão sempre presentes. A verdade mesmo é que só não dou muita chance para o clichê literário.
No entanto, quando ouvi de Daniele, fiquei curioso para ver o que há antes do fim do mundo entre um piloto promissor da Stock Car e uma jornalista ambiciosa, cada qual com seus mistérios e enevoados pela translucidez característica do ser humano.
Formados ambos por uma autora que se doa radicalmente na escrita, que tira “um pedaço” da sua mente — ciumenta com seus escritos —, Alice (Alice, mesmo, em português) e Chase são pontos de uma obra calma, para ser lida numa terça chuvosa ou na madrugada de um sábado despretensioso, seja sob um sol poente ou numa manhã morna e barulhenta. É um daqueles livros que você ousa degustar para poder continuar vivendo a literatura, buscando assimilar a forma como os personagens são pessoas a se identificar e almejando um ponto de parada, de pausa perfeita que somente a literatura — com tanta suma excelência — pode proporcionar. E dessas excelências partem reflexões de vida.
Regredindo, assim, para sua primeira obra, lançada também em 2023, Daniele dispõe o seguinte: “é sobre relações familiares e sobre como não existe um vilão na vida, existem pessoas falhas, que cometem erros e esses erros impactam em outras pessoas. E eu sei que isso não é um livro comercial.”
Foi bem interessante pensar sobre isso, justamente em um período de escassez nas vendas de obras literárias clássicas, em detrimento de livros do book tok e do bookstagram, favorecidos essencialmente por uma indústria editorial com interesses econômicos.
E na escritura de obras brandas com as de Daniele, ainda vemos temas que suscitam uma respiração para alma, conjuntamente a um mergulho em nós e conosco, por dentro de uma jornada que somente o indivíduo pode traçar, sem ajuda sequer, mas com uma estrada a guiar; a qual, quem sabe, tope com uma outra estrada-história, essa que talvez dome uma nova paixão, ou novo amor, ou novo encontro efêmero aproveitado dentro de suas possibilidades.