A compaixão a partir da literatura
Os devaneios entre Sontag e a sensibilidade
Li um livro de contos, já há um ano, de Conceição Evaristo, e foi a melhor leitura que fiz do gênero. A pungência e a realidade daquelas palavras me deixaram estático. Eu senti a dor. A este sentimento atribuo o nome de “empatia”, quando o leitor se coloca no exato lugar do personagem, identifica-se com ele e até chega a sofrer junto. Fora das páginas sabemos que é assim também que o sentimento se manifesta. No entanto, existe a possibilidade de entender a condição do outro por vias mais racionais, mais distanciadas. Isto, segundo entendidos do assunto, é a “compaixão”.
A filósofa Hannah Arendt, em um dos ensaios de “Homens em tempos sombrios”, pontua que compaixão é a aversão inata pelo sofrimento de um semelhante. Em 2003, discorrendo diretamente sobre o tema a partir da evocação de imagens de guerra, a também filósofa Susan Sontag lança “Diante da dor dos outros”, que é um compilado de textos sobre questões de sensibilidade, naturalização do sofrimento e guerra.
A autora explica que nossa memória coletiva está condicionada a fotografias, cujo objetivo é, muitas das vezes, promover a compaixão e o olhar atento sobre um acontecimento. Foi assim desde 1945, quando as fotos começaram a ser usadas com essa finalidade; não encantar, mas – na realidade da guerra – perturbar e enojar. Na literatura, a evocação de imagens realistas serve de recurso para a sensibilização do leitor, durante a construção de sentido que ele faz do texto lido. No entanto, no cerne do argumento de Sontag, aparece a indagação: “será?”, na qual a pensadora duvida da suposição de que a mostra da violência ajuda para a contínua sensibilidade de quem lê um texto ou vê uma foto.
Sontag explica que não existe um “nós absoluto quando se trata de olhar a dor dos outros.” Ou seja, cada pessoa interage de um jeito a exposições desse tipo. O que fica claro, ao mesmo tempo, é que existe uma profunda naturalização da violência e, na atualidade, temos nos acostumado com o caos que vemos em noticiários televisivos e escritos.
Resta, ainda, o questionamento: “podemos evitar isso?”. Será que podemos não normalizar o sofrimento, ou será que é inata a barreira que criamos, a fim de nos proteger de notícias desse tipo? A filósofa adiciona que a exposição de uma situação temerária não traz soluções práticas para como deixá-la ou evitá-la. Assim sendo, ela admite ser natural e conveniente – sem necessidade de nos sentirmos culpados – a normalização da violência que vemos em notícias e até livros de história, por exemplo. Como ela mesma explica, a compaixão que sentimos é um sentimento instável, que definha se não for levado à ação.
Assim, é relevante que busquemos oportunidades de levar nossa compaixão à prática, garantindo que ela não seja esquecida. No contexto literário, talvez seja interessante também escrever notas nos livros, detalhando os sentimentos e as percepções que surgiram no momento da leitura, de forma que sejam rememoradas sempre que o livro for folheado.
É quase impossível, pelo visto, que, na modernidade, estejamos empáticos o tempo todo e vigilantes para atender toda causa e ser caridosos com toda realidade. As ideias, opiniões, fatos catastróficos, políticos, penais, internacionais etc; surgem como enxurrada e derramam-se sobre nossos olhos e ouvidos, sem que haja a possibilidade de trancarmo-nos disso ou dispormo-nos indiferentes a tal. Ninguém, ao que parece, está imune da grande rede social – enclausurante, verborrágica e, em maior parte, inútil – e também não somos culpados pela ingênua troca de canal quando é falado na televisão sobre a mais recente tragédia nacional. Já em 1800 argumentava-se sobre como diários e notícias “constantes” deterioravam a mentalidade das massas e aglutinavam – em 1800! – os primeiros passos de uma sociedade cansada, instantânea e substancialmente líquida.
Como se vê na mudança física de fases, o líquido pode se tornar sólido. O nome para isso é solidificação. A sua necessidade no contexto atual é iminente; solidificar as práticas, situações e convivências da sociedade pós-moderna, que vem a ser mais dinâmica e ágil, mas menos completa em termos de virtude e com novos problemas gigantescos. Se, ao menos, a sociedade buscar disposição para mudança de fase, haverá possibilidade de se ter mais compaixão balanceada do que naturalização demasiada ou sofrimento empático.