Platão: poético e contemporâneo
Os esforços para se manter viva a chama da filosofia antiga
Não raramente perdemos de vista o sentido de reavivar a cultura clássica, seja na música, na filosofia ou na literatura. Bem… melhor que eu, explica Natália Sulman – no recém-lançado livro “A poética de Platão – Conteúdo e forma nos Diálogos” – que existe um verdadeiro tesouro nos meandros e na complexidade de textos milenares como os do filósofo grego sobre o qual ela se dedica, Platão.
Entre gente e mundo líquido, num plano editorial que fortalece e vende, sobretudo, best-sellers e outros produtos da indústria cultural, o livro de Sulman aparece como a luz do túnel iluminista. É coeso no título e nos explica – por reflexões agudas e passagens dignas de grifo – como o discípulo de Sócrates utiliza o diálogo, um gênero dramático, para deslindar suas teorias filosóficas, na tentativa de colocar a dialética no mundo das ações e não a aprisionar no mundo dos pensamentos.
Platão utilizava-se da fonte popular – narrativas míticas – para se conectar com a realidade da época e dar vivacidade a sua obra – esta que era composta de personagens dos mais diversos. A linha mestra da dialética socrática, exposta nos textos, funda-se na busca pela verdade (em oposição à retórica sofista, a qual buscava tão somente a vantagem nos debates).
Em atuais dinâmicas de comunicação, a verdade ainda é tema central, por conta da sua fragilidade, em especial na pós-modernidade, quando é constantemente atacada e desprezada. O conteúdo aderido à forma platônica – o diálogo – é ainda hoje uma doação de conhecimento e reflexões intransponíveis pelo passar dos séculos.
É desta filosofia, ousada e loquaz, que talvez precisemos ainda em 2023. E, mesmo se não entrarmos de cabeça na vida filosófica após a leitura de A república ou O banquete, certamente terá sido válida a apreciação da poesia e a suavização das vicissitudes da alma proposta pelo pensador.