Tornando-me
Foi minha mãe quem me mostrou os primeiros contornos das histórias orais. Foi também ela, quem me contou o “era uma vez” e “fim” nas noites em que o cansaço mais a tomava, e ela quem me acalentou com música quando eu não conseguia dormir.
Foi ela e a minha irmã, Natália — a qual deu exemplo prático, já que vez ou outra estava deitada a ler —, que formaram o “Lucas leitor do mundo”, intrinsecamente curioso e imaginativo. O leitor da palavra, no entanto, vingou lentamente.
Eu estava no nono ano quando, despretensiosamente, uma querida professora, Luísa, me apresentou um livro que, segundo ela, seria do meu gosto. Li, amei e continuei. Busquei mais e mais e parecia não me saciar. Vi-me incorporando a própria Matilda de Roald Dahl: ávida, atenta e preparada para tudo.
Moldei-me aos livros e vi que era bom. Aquelas realidades todas se projetaram em mim. Vi personagens como eu, conheci histórias reais e antigas, soube de biografias impensáveis, aprendi sobre a filosofia de Platão, busquei entender o texto hermético de Clarice Lispector, deleitei-me com o humor de Moacyr Scliar, viajei para o nosso nordeste com Rachel de Queiroz, meditei a inconfidência mineira com Cecília, odiei veementemente o Sr. Scrooge, de Dickens. Nisso, compreendi que colocar o irreal em palavras é dignificá-lo; é torná-lo universal.
Tamanha transformação não deveria implicar só em meus particulares meandros, e foi exatamente por isso que decidi abrir um ambiente virtual para a leitura ser celebrada. Chamei-o de “Livros que falam”, no Instagram. De tão empolgado, comecei a seguir um mundo e meio de pessoas — sem saber que essa não era a melhor dinâmica para se ter engajamento.
Passado um tempo, a página de indicação de leituras se tornou uma pesquisa de cunho científico, financiada por um programa da Unicamp e orientada por duas extremamente inteligentes professoras, Carol e Helô. Foram elas que abriram portas para um Lucas observador e pesquisador, que começou a se importar com a escrita e fazer dela seu meio de atingir mais pessoas. Sob a companhia de Maine e Luana, o projeto deu excelentes frutos e ainda mais vivacidade para o meu sonho.
Daí em diante, vingaram outros diversos projetos, como o clube de literatura brasileira Hecov (iniciado em 2022 e ainda existente no Colégio Técnico de Limeira), as feiras do livro “Troca&Lê”, leituras coletivas feitas pelo Instagram, lives com amigos e familiares etc.
Tudo isso tem me ajudado a falar em público, adquirir conhecimento e expandir a ideia de ser leitor. Ademais, foram as participações em eventos literários, como a QLIC e o Juca Jazz, que me abriram portas para pensar na próxima realidade e na esperança de produzir e ser parte da cultura na região.
Agora, inicio minha jornada enquanto colunista no Portal Reverbere, com a coluna “Contracapa”, na qual, a cada quarta-feira, trarei um artigo com a temática que envolve o universo dos livros. Esse mesmo que eu venho apresentando ao longo deste artigo inaugural.
Para assimilar paixão pelo conhecimento e trabalho, resolvi adentrar logo na docência. Por ora, sou professor de inglês. Daqui a pouco, quem sabe, de história, ou sociologia, ou filosofia, ou psicologia… não sei, mas o mundo me aguarda. E aguarda também a você, leitor ímpar, sempre com a certeza da companhia formidável de livros — pilhas, montes, salas, casas… e mentes repletos deles.