Sociedade feliz e cansada
A negatividade da positividade
O filósofo Byung-Chul Han escreve, em sua obra Sociedade do Cansaço, dentre outros temas, sobre a extrema positividade na sociedade atual. Apesar de aparentemente incoerente, o pensador explica que esse excesso se torna negativo, ao passo que determina o comportamento grupal de alegria “eterna”, estimulada — pelo que percebo — em contextos de mídias sociais, em especial por certos influenciadores da moda e do “lifestyle” desmesurado, falso e descarado.
Essa produção massiva de conteúdos e sua simultânea recepção na internet, acaba causando uma escoriação mental muito determinante, por exemplo, em momentos de compra recomendada por “influencers”, e na tentativa de reprodução de comportamentos, os quais parecem dar certo na rotina “perfeita” do/a blogueiro/a.
Para além de explicitar o caráter ultra positivo da comunidade global, Han finca um denso argumento acerca da sociedade do cansaço, que em sua visão se relaciona com uma sociedade do desempenho, em que o nível da cobrança individual vem a ser maior do que a cobrança externa, evidenciando a decadência da sociedade disciplina. Aliás, não existe nem a de controle.
De qualquer forma, há uma cobrança interna muito eficaz em cada pessoa, que emerge frutuosamente, visto que somos estimulados a produzir mais e mais e, quando não atingimos determinada meta ou objetivo, cresce uma culpa radical e um sentimento de ócio que insatisfaz muitos de nós, especialmente os “ligados no 220”, sobre os quais age um pensamento de produção acelerada que não permite pausa, e acaba por causar um cansaço indelével na rotina.
Dentro de uma perspectiva literária, o autor traz o caso — curioso! — do escrivão Bartleby, do autor Herman Melville, que começa a se recusar ao trabalho, simplesmente declarando: “prefiro não” (prefer not to, em inglês) e, sepultando sua capacidade de resposta automática, que é muitas vezes uma conduta geral, Bartleby se alinha a um torpor grandioso que o leva a um final estranho e misterioso. É, mesmo, um audaz pequenino livro do mesmo autor de Moby Dick (1851).
Sem mais, levemos a sério a leitura maravilhosa do livro de Han e a realizemos como uma sinalização em favor da nossa necessária habilidade de “ouvir, parar, pensar e responder”, sem pular a segunda e terceira etapas. E, também, a necessidade de um ócio vez ou outra, para que sejam balanceadas as várias ações das nossas vidas. E que não se interprete este texto como recomendação para ser Bartleby, o qual, na sua condição de aéreo e ignorante, infelizmente não pôde se ajudar.
Você, caríssimo leitor, tenho certeza, ainda pode se ajudar. Quebre a bolha do cansaço que nos rodeia.